terça-feira, 22 de julho de 2008

II

Do significado e das condições que permitem a compreensão



"Gadamer fez uma crítica ferrenha a Dilthey, ao afirmar que 'o objetivo da compreensão não deve ser superar o nosso ponto de vista nem fugir dele a fim de entrar no outro' (GADAMER apud TAYLOR 2000:165). Comete-se, segundo Gadamer, erros incríveis quando se toma a razão a partir da tradição das ciências naturais. A visão difundida pelas ciências naturais, a partir do século XVII, tem afirmado que o progresso da ciência depende do distanciamento das pré-noções do pesquisador, até o afastamento da perspectiva humana como tal, com o objetivo de se chegar à verdade científica. Propõe-se uma visão que não depende mais da perspectiva do agente ou sujeito do conhecimento acerca do mundo vivenciado, mas, sim, da perspectiva de uma terceira pessoa, de um sujeito neutro, baseado apenas nos padrões da racionalidade e da evidência.Neutralizam-se quaisquer visões particulares de mundo sob o pretexto de que estas comprometem e distorcem a compreensão e apreensão do objeto, colocando em xeque o desenvolvimento da ciência.

"Taylos argumenta que esse procedimento das ciências naturais não pode ser tomado pelas ciências humanas devido às diferenças quanto aos objetivos das ciências humanas. Estas têm como objetivo principal não somente prever o comportamento das pessoas como, especialmente, torná-las inteligíveis. E, justamente por isso, é impossível a adesão ao pressuposto das ciências naturais. (...) Todos nós dispomos de condições de inteligibilidade de nossa cultura que estõa vinculadas a nossa compreensão sobre a nossa vida. Utilizamos, mesmo que de forma inarticulada, as concepções básicas de nossa cultura para entendermos e julgarmos as nossas ações e motivações, assim como, para fazermos o mesmo com as outras pessoas. (...) Para Gadamer, a compreensão de um dado novo acerca da realidade nos permite uma transformação de nossa visão anterior, ou melhor, de nós mesmos. Aqui começa a discussão sobre o objetivo do exercício comparativo. O processo de compreensão do outro envolve obrigatóriamente uma comparação com a minha visão de mundo. Só é possível a partir dela. A inteligibilidade do outro depende da nossa própria compreensão humana."



Patricia Mattos. (2006) A sociologia política do reconhecimento: as contribuições de Charles Talor, Axel Honneth e Nancy Fraser.

I

Siddhartha.

"Era de modo diferente de outrora que a essa altura pensava sobre as criaturas humanas. (...) Quando conduzia passageiros ordinários, homens tolos, negociantes, guerreiros, mulherio, esses seres já não se lhe afiguravam estranhos. Ele os compreendia. Compreendia a sua existância jamais orientada por raciocínios e percepções, senão exclusivamente por instintos e desejos. (...) Sentia-se igual a eles. (...) A vaidade, a cupidez, o ridículo que os dominavam perdiam para ele a sua comicidade, encontravam explicação (...) O amor cego que a mãe tributasse ao filho; o orgulho estúpido, obcecado, de que um pai presunçoso se enchesse em face do filhinho único; o desejo desvairado, furioso de possuir jóias, de ser admirada pelos homens - todos esses instintos, todas essas infantilidades, ambições e ânsias, impulsos simples, irracionais, porém invencíveis na sua desmedida força e na sua pujante vitalidade, cessavam de apresentarem-se aos olhos de Siddhartha como criancices. Chegava ele a entender que os seres humanos viviam em função dessas coisas e justamente elas os capacitavam para proezas incríveis, permitindo-lhes fazer guerras, empreender viagens, suportar tudo e resistir a sofrimentos sem fim." Hermann Hesse.